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Disponibilidade física e utilização de equipamentos de mina: como calcular sem erro

Por Deyvison Cruz · · 6 min de leitura

Disponibilidade física e utilização de equipamentos de mina: como calcular sem erro

Poucas discussões em mina são tão recorrentes quanto esta: a operação diz que o equipamento "vive na oficina", a manutenção diz que o equipamento "fica parado no pátio sem operador". Os dois podem estar certos, e é justamente para separar uma coisa da outra que existem dois indicadores: disponibilidade física (DF) e utilização (UF).

Neste artigo mostramos como calculá-los, que apontamentos são necessários para que os números sejam confiáveis e quais erros mais distorcem o resultado.

O ponto de partida: as classes de tempo

Todo indicador de equipamento nasce de uma pergunta simples: o que o equipamento estava fazendo em cada minuto do período? Para responder, divide-se o tempo total em classes. A nomenclatura varia de empresa para empresa, mas a estrutura costuma ser parecida com esta:

  • Horas calendário (HC): todo o tempo do período. Um mês de 30 dias tem 720 horas calendário.
  • Horas de manutenção (HM): tempo em que o equipamento está indisponível por causa da manutenção, seja preventiva, corretiva, aguardando peça ou aguardando mecânico.
  • Horas disponíveis (HD): HC menos HM. É o tempo em que o equipamento estava apto a trabalhar.
  • Horas trabalhadas (HT): dentro das horas disponíveis, o tempo em que o equipamento efetivamente operou.
  • Horas paradas operacionais: o equipamento estava disponível, mas parado por razões da operação, como troca de turno, refeição, abastecimento, falta de operador, chuva, desmonte ou falta de frente.

Essa hierarquia é o que se chama de árvore de estados ou árvore de tempos. Cada estado apontado no equipamento pertence a um galho dessa árvore, e os indicadores são somas de galhos.

Como calcular DF e UF

Com as classes definidas, as fórmulas mais usadas são:

  • Disponibilidade física: DF = (HC − HM) ÷ HC × 100
  • Utilização: UF = HT ÷ (HC − HM) × 100

A DF responde: de todo o tempo, quanto o equipamento esteve apto para trabalhar? É um indicador que fala principalmente da manutenção.

A UF responde: do tempo em que o equipamento estava apto, quanto ele de fato trabalhou? É um indicador que fala principalmente da operação.

Um exemplo para fixar

Imagine um caminhão em um mês de 30 dias (valores ilustrativos):

ClasseHoras
Horas calendário720
Horas de manutenção90
Horas disponíveis630
Horas trabalhadas450
Horas paradas operacionais180
  • DF = 630 ÷ 720 = 87,5%
  • UF = 450 ÷ 630 = 71,4%

Multiplicando os dois, chega-se a 450 ÷ 720 = 62,5%, que é a fração do calendário em que o caminhão realmente trabalhou. Algumas empresas chamam esse produto de rendimento ou aproveitamento.

Repare que o mesmo caminhão pode ter DF alta e UF baixa. Nesse caso a oficina está entregando o equipamento, mas a operação não está conseguindo usá-lo, seja por falta de operador, de frente ou por filas. Atacar a manutenção, aqui, não resolveria nada.

Variações que você vai encontrar

Algumas operações usam horas programadas no lugar das horas calendário, descontando períodos em que a mina não opera (por exemplo, domingos ou paradas programadas da planta). Outras separam a manutenção programada da não programada em indicadores próprios. Não há problema em adotar uma convenção diferente, desde que ela seja documentada e aplicada da mesma forma em todos os equipamentos e períodos. Comparar a DF de duas minas que usam bases diferentes é comparar coisas diferentes.

Que apontamentos são necessários

Os indicadores só são tão bons quanto os apontamentos que os alimentam. Para calcular DF e UF com segurança, cada equipamento precisa ter registrado, no mínimo:

  1. Mudança de estado com hora de início e fim: operando, aguardando, manutenção, refeição, troca de turno etc.
  2. Motivo da parada: não basta "parado"; é preciso saber se foi falta de operador, chuva, fila ou falha mecânica.
  3. Quem apontou: operador, despachante ou manutenção, para auditoria.
  4. Horímetro no início e no fim do turno: serve para conferir a coerência das horas apontadas.
  5. Abertura e fechamento da manutenção: o momento em que o equipamento entrou em manutenção e o momento em que foi liberado.

O ideal é que o operador aponte o estado no momento em que ele muda, e não no fim do turno. Por isso apontamento em tablet, com poucos toques e uma lista fechada de estados, costuma produzir dados muito melhores que fichas de papel.

Os erros mais comuns

1. Lançar "aguardando peça" como parada operacional

O equipamento está indisponível por causa da manutenção, então o tempo deve ir para HM. Lançar como parada operacional infla a DF e mascara um problema de suprimentos.

2. Contar "sem operador" como manutenção

O contrário também acontece: o equipamento está bom, mas ninguém para operar, e o tempo vai parar na conta da oficina. A DF cai injustamente e a falta de mão de obra fica invisível.

3. Confundir horímetro com horas trabalhadas

O horímetro registra motor ligado. Caminhão em fila com motor ligado soma horímetro, mas não está produzindo. Usar o horímetro como hora trabalhada superestima a UF. O horímetro é ótimo para planos de manutenção e para conferir apontamentos, mas não substitui a árvore de estados.

4. Apontamento retroativo

Quando os estados são preenchidos de memória no fim do turno, as paradas curtas desaparecem e os horários ficam "redondos". O resultado é um turno que parece mais produtivo do que foi.

5. Buracos e sobreposições

Intervalos sem nenhum estado apontado, ou dois estados ao mesmo tempo, quebram a soma. Uma regra simples ajuda: a soma de todas as classes tem que fechar exatamente com as horas calendário. Se não fecha, há erro de apontamento.

6. Árvore de estados diferente por equipe

Se cada turno ou cada supervisor usa nomes próprios para os estados, a consolidação vira um trabalho de tradução. A lista de estados deve ser única, cadastrada no sistema e associada a um galho da árvore.

Como transformar isso em rotina

Com a árvore de estados cadastrada e os apontamentos feitos na hora, DF e UF deixam de ser um cálculo mensal em planilha e passam a ser acompanhados por turno. A reunião diária muda de tom: em vez de discutir de quem é a culpa, a equipe olha para os motivos de parada mais frequentes e decide onde agir.

No iMine, a árvore de estados é configurável, o operador aponta o estado no tablet, o horímetro é registrado no início e no fim do turno, e a disponibilidade e a utilização são calculadas automaticamente por equipamento, frota e turno, junto com os indicadores de manutenção. Se a sua operação ainda calcula esses números à mão, vale conversar.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre disponibilidade física e disponibilidade mecânica?

Os nomes variam entre empresas. Em geral, a disponibilidade física considera todo o tempo de indisponibilidade por manutenção, enquanto alguns autores e empresas usam "disponibilidade mecânica" com bases ou descontos diferentes. O importante é documentar a fórmula adotada e usá-la de forma consistente.

A utilização pode ser maior que 100%?

Não, se as classes de tempo estiverem corretas. Uma UF acima de 100% indica erro de apontamento, como horas trabalhadas lançadas em duplicidade ou manutenção lançada fora do período.

Com que frequência devo acompanhar DF e UF?

O ideal é acompanhar por turno e por dia, para agir rápido, e consolidar por semana e mês para tendências e planejamento. Indicadores vistos só no fechamento do mês chegam tarde demais para mudar o resultado.

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